Calligares é um psicanálista que escreve todas às quintas-feiras para a Folha de S. Paulo. Sua coluna fica na página Ilustrada. Acredito que vale a pena lê-lo. Gostaria de compartilhar com vocês a carta que lhe escrevi sobre o filme “Ensaio sobre a Cegueira”, de Fernando Meirelhes, baseado na obra de José Saramago.
Boa noite, Contardo
Há tempos leio semanalmente sua coluna e, pela primeira vez, crio coragem para te escrever. Admirei muito sua posição e análise sobre o filme “Ensaio sobre a Cegueira”, além, é claro, de admirar seu trabalho.
Gostaria de elogiar sua sensibilidade em relação ao questionamento de valores das pessoas a partir de posições das quais se encontram em um “Juízo Final” e afirmar que concordo com o que escreveu sobre as mulheres. De fato o filme nos mostra uma coragem acima de qualquer ciúmes e valores impostos culturalmente pelos homens. Parabéns.
Quanto a nota de Manohla Dargis, concordo novamente com você. O passado e a história de vida, o que as pessoas fizeram de bom ou ruim, ou deixaram de fazer, não importa, quando todas são colocadas em algo que as iguala, e as deixa, como se diria, “no mesmo barco”. Cabe a cada um tomar atitudes e fazer suas escolhas a partir do que estão passando no momento.
Acredito que, quando o homem se encontra em uma situação de ausência, sem saída, as atitudes e valores não importam mais. Por isso criam guerras, ditaduras, para ter motivação e uma forma de viver.
Não acredito que o filme tenha uma visão maniqueísta, mesmo porque, como todos os seres humanos, os personagens “bons” do filme podem errar, trair, mentir e matar, afinal, estão todos cegos, ou quase todos.
É difícil. Não posso afirmar que é um filme legal, porém, na minha concepção, digo que é um filme bom. Um amigo me questionou, logo após assistirmos ao filme, como saberia se sua percepção é coerente ao que o diretor quis passar. Respondi que não sabemos, o importante é se te passou algo, independente do que é de fato.
Uma epidemia se difundi com uma rapidez, em uma cidade onde todos são desconhecidos, porém ligados pela mesma doença. Os nomes nem importam mais. A doença aproxima os individuos, atingindo a todas as classes e raças.
O homem, ao deparar-se com uma situação de ausência, de perda, de desilusão e desmotivação, questiona seus valores e escolhe seu caminho.







